Cultura Viva Comunitária assalta as ruas de El Alto e La paz.

Assaltos poéticos transformam as ruas em uma festa pluricultural 

Neste último sábado (18), a abertura oficial do I Congresso Latinoamericano de Cultura Viva Comuntária tomou de assalto as ruas de La Paz, na Bolívia. O evento, que reúne cerca de 2.000 participantes de 17 países, tem como objetivo reunir, organizar e dar visibilidade aos grupos que há anos atuam com cultura viva – desde a rede de quilombolas no Brasil até os grupos de povos originários da América pré-colombianos. Durante o período colonial e o recente imperialismo norte-americano e agora brasileiro, esses grupos comunitários têm grandes dificuldades de atuar no campo da cultura frente a Indústria Cultural. Desse modo, uma das principais reivindicações do Congresso e seus participantes é que 1% do PIB de cada país seja destinado à Cultura e, que, mais importante ainda, 0,1% deste orçamento para a pasta vá para programas de fomento à cultura viva comunitária – que representa uma visão plural e descentralizada do tema, tratando como cultura a expressão de cada indivíduo, grupo, coletivo e rede comunitária.

As atividades iniciaram com uma série de 5 assaltos poéticos que tiveram como ponto de partida El Alto, cidade satélite na região metropolitana de La Paz. “El Alto é onde nasceu a Bolívia contemporânea e o Estado Plurinacional”, afirma Ivan Nogales, um dos idealizadores do congresso e fundador da COMPA – Comunidade de Produtores em Artes. A organização, com sede em El Alto, tem grande parte dos créditos pela realização do encontro e, segundo Nogales, a ideia era re-significar os assaltos ocorridos na Bolívia durante o período da colonização espanhola. Durante a invasão colonizadora, grupos indígenas de diferentes etnias se reuniram ao redor da cidade de La Paz, em El Alto, e através de um bloqueio, assim retomando para si a região em torno da cidade.

Assim, os assaltos poéticos tiveram como objetivo a retomada de cada um dos 5 espaços públicos pela cultura popular boliviana. Foram eles: a Poética del Sueño, que tratava do sonho que precede a ação; a Poética de la Rebeldía, relativa às muitas revoluções que ali houveram; a Poética de la Muerte, sobre a transcendentalidade das ações em vida; a Poética de la Memoria, que relembrou os povos que passaram pela abandonada Estação Central de La Paz, por onde passaram os ancestrais do povo local e que neste dia foi reivindicada como espaço cultural. Por fim, a Poética del Cuerpo remeteu à lenda de Tupac Amaru ou Tupac Katari, revolucionário pré-colombiano cujo corpo teria sido dividido em dois e colocado em diferentes cantos do mundo. Assim, sua reunião significaria o fim das divisões que separam o ser humano e que cada agrupamento, cada marcha, protesto ou ato rebelde nos levaria cada vez mais perto do reencontro de nossa sociedade consigo mesma e a natureza. Os assaltos representaram, como um todo, a luta do povo latinoamericano por sua independência e soberania. “Tomar o céu de assalto é tomar a vida com poesia, ou seja, com alegria plena”, explica Nogales.

Realizado na Praça San Francisco, no centro de La Paz, o último assalto terminou em um grande palco, no qual subiram e discursaram representantes e políticos ligados à pauta da cultura viva comunitária em toda a América Latina. No caso do Brasil, o programa Cultura Viva foi idealizado por Célio Turino durante o governo Lula. “Mais do que pelas ditaduras militares, fomos colonizados e invadidos pela cultura”, afirmou Turino durante a abertura. O programa tem como ideia central o fortalecimento de agentes comunitários, grupos e coletivos culturais, tranformando-os em Pontos de Cultura através de um convênio com o Ministério da Cultura e, em um segundo momento, com a adoção do programa por secretarias municipais e estaduais, pontos regionais. Dessa forma, a cultura popular é promovida pela própria sociedade civil, que cumpre papel fundamental na manutenção da cultura local. Portanto, o Congresso é o primeiro espaço de encontro, difusão e fortalecimento de agentes que lutam pela cultura comunitária latinoamericana. “Estamos aqui para afirmar uma ideia: a ideia de que a cultura comunitária está viva”, conclui Célio.

Esse texto é uma contribuição para a Comunicação Compartilhada do I Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária e foi produzido por Beatriz Moreira do Coletivo Soylocoporti. A imagem é de autoria de Michele Torinelli do Coletivo Soylocoporti. A iniciativa consiste no entendimento da comunicação como ação política e não apenas como canal de circulação de informações. Trata-se de um processo de interpretação da realidade desenvolvido colaborativamente em contraposição à lógica competitiva da mídia de massas. Para saber mais, acesse: www.congresoculturavivacomunitaria.org/.

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